Estudo observa risco de deficiências nutricionais em jovens que usam agonistas de GLP-1.
Em 30 segundos
- Medicamentos para obesidade em jovens podem estar ligados a deficiências nutricionais.
- A falta de vitamina D foi a mais comum em adolescentes usando GLP-1.
- É crucial conversar com um médico para monitorar a saúde nutricional.
Os medicamentos conhecidos como agonistas do receptor de GLP-1 (os famosos GLP-1RAs), que ajudam a controlar o açúcar no sangue e a promover a perda de peso, estão cada vez mais em evidência. Eles são uma ferramenta importante para muitos adultos e, em alguns casos, também para adolescentes que precisam gerenciar a obesidade ou o diabetes tipo 2. Mas um novo estudo traz um alerta: jovens entre 10 e 17 anos que usam esses remédios podem ter um risco maior de desenvolver algumas deficiências nutricionais.
Essa descoberta é importante porque a adolescência é uma fase de crescimento intenso, onde o corpo precisa de muitos nutrientes para se desenvolver de forma saudável. Saber que uma parte desses jovens pode estar com falta de vitaminas ou outros elementos essenciais acende um sinal amarelo para pais, médicos e nutricionistas, mostrando que o acompanhamento nutricional pode ser ainda mais crucial do que se pensava.
Como os cientistas chegaram nisso
Para desvendar essa história, os pesquisadores agiram como verdadeiros detetives de dados. Eles mergulharam em um banco de informações administrativas de sinistros de saúde, que é basicamente um grande arquivo com registros médicos de milhares de pessoas, coletados entre 2017 e 2022. O foco foi em 2.031 jovens, todos com idade entre 10 e 17 anos (a média era de 15 anos), que tinham começado a usar um medicamento da classe GLP-1RA e que não tinham nenhuma deficiência nutricional diagnosticada antes de iniciar o tratamento. A maioria desses jovens (61,5%) era do sexo feminino, e 62,6% viviam com obesidade.
Os cientistas acompanharam esses adolescentes por até um ano após o início do tratamento, procurando por diagnósticos de deficiências nutricionais ou complicações ligadas à alimentação, usando os códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Eles descobriram que 16,88% desses pacientes foram diagnosticados com pelo menos uma deficiência. A falta de vitamina D foi a mais comum, atingindo 12,4% dos jovens, como se um pequeno “ladrão de sol” estivesse agindo. Outras deficiências incluíram anemia nutricional (1,55%) e anemia por deficiência de ferro (1,44%). Curiosamente, os medicamentos mais prescritos foram a liraglutida (78,6%), dulaglutida (10,4%) e semaglutida (9,1%). Os pesquisadores também notaram que apenas 23,3% desses jovens tiveram alguma consulta de terapia ou aconselhamento nutricional nos primeiros 180 dias após iniciar a medicação, e o tempo médio para essa primeira visita foi de 149 dias. Os dados também mostraram que pacientes que tiveram consultas de terapia/aconselhamento nutricional apresentaram taxas mais altas de deficiências nutricionais (23,2% contra 14,8%), o que pode indicar que esses jovens já estavam em maior risco ou já apresentavam sinais de deficiência, justificando a intervenção.
Calma lá
É importante lembrar que este foi um estudo observacional. Pense assim: os cientistas observaram o que aconteceu, como um fotógrafo que registra um momento, mas não controlaram as variáveis. Isso significa que, embora eles tenham encontrado uma ligação entre o uso dos medicamentos e as deficiências, não podemos dizer com certeza que um causou o outro. É como ver que pessoas que andam de guarda-chuva estão molhadas, mas não que o guarda-chuva causou a chuva. Pode ser que outros fatores, como os hábitos alimentares já existentes ou a própria condição de saúde que levou ao uso do medicamento, também influenciem. Além disso, os dados vieram de registros administrativos, que dependem do que foi anotado pelos médicos e do que foi registrado para fins de seguro. Algumas deficiências podem ter passado despercebidas ou não terem sido codificadas, e nem todo aconselhamento nutricional pode ter sido registrado. Por isso, essa pesquisa levanta uma bandeira, mas ainda precisamos de mais estudos para ter certeza do tamanho e da natureza exata dessa relação.
O que isso muda na sua vida
Por enquanto, este estudo não muda as recomendações médicas atuais sobre o uso de agonistas de GLP-1RAs em adolescentes. O recado mais importante é: jamais mude seu tratamento ou o de seu filho sem antes conversar com um profissional de saúde. No entanto, a pesquisa serve como um lembrete importante para médicos e pais. Se um adolescente está usando esses medicamentos, é uma boa ideia ficar de olho na ingestão de nutrientes e considerar um acompanhamento com um nutricionista. Ter um plano alimentar equilibrado e, se necessário, suplementos (sempre sob orientação médica) pode ser um passo preventivo para garantir que o jovem receba todos os “tijolinhos” que precisa para crescer forte e saudável. É uma oportunidade para reforçar a importância de uma nutrição atenta durante todo o tratamento.
Este estudo foi financiado pela Abbott Nutrition e publicado no periódico Childhood Obesity, com a contribuição de pesquisadores do Ann & Robert H. Lurie Children’s Hospital of Chicago.
Referência
KERR, K. W. et al. Nutritional Deficiencies, Complications, and Nutrition Therapy/Counseling in Pediatric Patients Using GLP-1 Receptor Agonists. Childhood Obesity, p. 21532176261486979, 2026. DOI: https://doi.org/10.1177/21532176261486979. Acesso em: 24 set. 2026.
Fontes:
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